sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A CLASSE MÉDIA, AGORA POR ELA MESMA




Já está nas livrarias o precioso álbum, muito bem ilustrado, que conta a realização do filme “5 x Favela, Agora por Nós Mesmos” com relatos e comentários realmente significativos. A idéia, em si, já é um achado. E dá para imaginar o esforço dedicado pelo pessoal das comunidades. O filme original, de 1955, foi um marco na cinematografia nacional, a referência a ele tem todo o sentido. O projeto atual não fica devendo, e de certa forma também marca o momento que estamos vivendo.

Pela mobilização de especialistas e qualidade dos equipamentos, não devem ter sido baixos os recursos captados para o projeto, embora essa informação não faça parte do documento. Não se pode deixar de inferir um fato que já vaza por todas as frentes da nossa realidade social. De tanto se pesquisar e se estranhar o chocante contraste da pobreza no país, de tanto se repetir a necessidade de dar atenção à calamitosa condição “dos menos favorecidos da sorte”, de tanto pesar a má consciência da elite nacional, vive-se um momento em que todas as vertentes políticas estão focalizadas nas populações de baixa renda, atropelando-se e duplicando-se na tarefa quase ilimitada de “salvar as classes despossuídas de seu destino inexorável”.

Mas as coisas não são assim tão simples. Uma vez em Lisboa, nos anos 70, em plena descolonização portuguesa na África, com a grande leva de portugueses retornando à força ao país, num processo necessariamente caótico, e uma forte corrente de “revolucionários” de todas as partes do mundo chegando àquela cidade na intenção de também participar do movimento dos “Cravos Vermelhos”, perguntei ao taxista que nos conduzia ao aeroporto se não se sentia orgulhoso de toda aquela solidariedade. Ele, muito pausadamente, e com o expressivo sotaque, comentou: “É, doutor, eu preferia que não nos ajudassem tanto!”

Nem vale a pena calcular o desperdício que envolve a parafernália de ONGs dedicadas á nobre tarefa de salvar o social, porque apesar de todos os pesares, real e efetivamente se está produzindo um efeito cascata de poderoso reforço das qualidades comunitárias, agora não apenas descobertas, mas também fortalecidas.

A fluência das populações historicamente injustiçadas é uma realidade no Brasil, e conforma uma estonteante “nova onda”, fulgurante na criatividade e na capacidade de mobilização. Enquanto a classe média cumpre o destino histórico de não gerar novidades e não saber aglutinar interesses, movendo-se numa modorrenta fragmentação de campos situacionais.

Desde os tempos imemoriais de Marx e Engels se sabe que não se pode esperar muito de um terreno com tintura residual, de natureza falsamente transitiva, capaz de viver uma eterna ilusão de poder e de vantagens comparativas, mas na verdade vitimada pela impossibilidade de se expressar claramente e conduzir seus legítimos direitos.

As elites, verdadeiras e falsas, não dependem de governos e o que lhes compete é apenas criar os disfarces para estar despercebidas, escondendo seu papel de detentoras reais do mando e responsáveis finais pelo que acontece no país. As elites não governam, fazem-se governar através de um corpo fragmentado de políticos, desfigurado como estratégia de sobrevivência.

Essa mesma configuração se expressa nas atuais eleições onde de um lado se acotovelam todas as forças sociais vigorosas, aliando-se a todo tipo de representação, e do outro lado o já velho partido centrista, que perdeu no caminho o lado esquerdo, e se mostra descolorido, sem identidade e fartamente desfocado. Com a triste sina de mais uma vez assumir o papel coadjuvante da história, desfigurado, sem discurso, e aparentemente transferindo para um futuro indefinido, como ele próprio, a sua hora e a sua vez. Infelizmente a expressão mais conformista das classes médias, tudo com a cara delas, mas nada que lhe serviria nesse momento. Não há palavra de ordem que possa levantar uma bandeira nesse território, numa luta já perdida e sem garantia de volta por cima. Mesmo sabendo da oportunidade histórica que se está perdendo, de estabelecer alicerces estruturais robustos como base de construção de um futuro solidamente democrático e socialmente justo, agora quando por discutíveis critérios se afirma que o Brasil é finalmente um país de classes médias.

Graças ao crédito quase ilimitado, as classes médias, que são imediatistas, se entusiasmam quando podem chegar a Paris, quando antes se satisfaziam com Miami. Despolitizadas, deixam-se iludir com discursos que não atendem a seus interesses reais, sucumbindo ao desgarre dos seus objetivos principais. Sendo um espaço flexível, sofre com as políticas que a reduzem ou alargam, diluindo suas fronteiras, ao sabor de critérios oportunistas. Até como massa de manobra consumista está dando lugar às chamadas classes c e d, novas donas do pedaço.

Outro dia um traficante se vangloriava diante das câmeras repetindo o que cada dia é mais óbvio, ele pode circular com desembaraço por toda a cidade, se ainda não está fichado pelas instituições policiais, mas as classes médias, cada vez mais encerradas em seus edifícios, e aí mesmo por vezes ameaçadas, não têm direito a visitar os lugares mais “quentes” do subúrbio, são tristes figuras enjauladas em seus berços de ouro. Os filhos das classes médias correm riscos se quiserem, por exemplo, chegar aos bailes “funk” dos bairros mais afastados, mas qualquer cidadão das Zonas Norte e Oeste pode circular pela Zona Sul e tomar sol nas charmosas praias da área.

“5 X Favela:agora por elas mesmas” é um marco, mas está longe de ser o que pretende. É notória a presença e influência que um grupo de elite do cinema exerce na criação e condução, inclusive na adoção de tecnologia e estratégia de última geração. Mas não podia ser diferente e isso não invalida o caráter inovador e ao mesmo tempo demonstrativo da nova realidade brasileira, com a cultura dominada fluindo como uma força emergente e mais intensiva que certamente será domesticada e consumida pelo sistema, como de costume, mas cada vez com maior participação dos que chegam de baixo.

A classe média seguirá seu destino, sem convicções, à procura de ser ela mesma e poder formular e conduzir seus interesses legítimos.

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