segunda-feira, 19 de maio de 2008

CRISE SISTÊMICA

Os sucessivos governos – federais, estaduais e municipais – somando ineficiências e despreparo, vêm perdendo oportunidades, realizando trabalhos provisórios, mal concluídos ou inconclusos, acumulando ônus, perdas e dívidas, cujo custo, em última instância, é assumido compulsoriamente pela sociedade brasileira. Déficits que obrigam os novos governos sem criatividade administrativa e sem força política a valer-se de aumentos e duplicação de impostos e taxas de toda ordem. Essa dívida tem-se traduzido em estradas mal cuidadas, professores mal pagos, saúde pública enferma, capacidade de poupança do país arruinada e classes médias sufocadas. Os economistas neoliberais de plantão no governo fazem simplesmente a recorrente receita dos organismos financeiros internacionais e mantêm o compromisso de não mudar nada para que o sistema financeiro continue acumulando lucros descomunais. Os economistas petistas, preocupados com a biografia, fazem crítica acanhada, certos de que não serão levados a sério, e logo se acomodam nos gordos empregos. Ninguém estranha um desemprego que varia em torno de 13%.
Enquanto isso as classes médias, sem expectativas e horizontes, saem para os pequenos delitos, as espertezas marotas e as inadimplências anunciadas, formando no conjunto da obra uma corrente viciosa de transgressões da ética e dos preceitos do bem-estar-social.
E as chamadas classes populares estão satisfeitas com os subsídios sociais, o crédito facilitado através de inúmeras fórmulas e os preços contidos da cesta básica, mas continuam com suas estratégias de sobrevivência, já históricas, que se ajustam às condições impostas pela informalidade e o convívio intermitente com o estado policial.
As cadeias e os centros médicos estão lotados e o sistema de previdência onerado. Não são problemas isolados, o país vive uma inequívoca crise sistêmica, em que as perdas e deficiências, de um lado, vão pesando no desempenho, em outros lados. Comecemos por saúde e educação. Um povo bem educado, desde o pré-natal, passando pelo jardim de infância e educação de base, vai saber cuidar melhor da saúde e preservar o ambiente, na certeza de que se estará beneficiando em saúde e prazeres, vai respirar melhor, vai ter menos contágios etc. Tendo melhor saúde vai render mais na escola, vai aprender mais fácil e não vai faltar às aulas por resfriados e malária. Vai custar menos também para o estado e para a família, porque não vai gastar tanto em remédios e em reforços escolares e repetências.
Se o estado economiza em gastos marginais, vai poder melhorar a qualidade da escola, dos equipamentos e salários. Os cidadãos, mais educados e menos enfermos, vão ter melhor desempenho no trabalho e vão elevar a produtividade das empresas, o que por sua vez vai possibilitar aumentos salariais e investimentos em ampliação, de novo puxando o emprego. Novos empregos geram mais capacidade de consumo, mais estímulos à produção, maior arrecadação de impostos sem necessariamente sua elevação. Menos enfermos e mais saúde, as pessoas desoneram os serviços, e os planos de saúde não terão argumentos para continuar elevando preços. Cidadãos felizes se mantêm em atividade e não se tornam inativos precipitadamente, trazendo mais alívio aos sistemas previdenciários. Se as pessoas são mais educadas, podem se informar melhor e compreender melhor a complexidade da vida moderna, e votarão melhor, e cobrarão dos seus representantes o respeito às promessas. Se a sociedade enxerga melhor vai exigir transparência dos serviços e dos investimentos, e haverá maior produtividade do gasto público. Com mais recursos e legitimidade, o serviço público poderá oferecer melhor educação e saúde. E voltamos ao começo. Mas não adianta fazer remendos ou atacar uma ilha no oceano. Os administradores da coisa pública não têm mostrado, historicamente, vocação para estadistas, pessoas que olham o interesse da sociedade e projetam obras e serviços que passam dos estreitos limites de seus mandatos. Nunca se pôde explicar como surgem gerações virtuosas de dirigentes da coisa pública, parecem ser produtos do acaso, o que não nos autoriza esperar que nosso país será contemplado, aquela estória de Deus ser brasileiro. Um país virtuoso teria maiores consensos e transparência o que significa prestar contas, explicar. E aí começam as dificuldades, e voltamos ao começo, sempre voltamos ao começo e sempre apostamos no futuro desligando do presente. Um dia teremos de começar de fato, e não importa por onde, desde que o envolvimento seja como a crise, sistêmico. Os sistemas são criações intelectuais elaborados para facilitar a compreensão e explicação da realidade. Mas seus efeitos existem independentemente de nossa capacidade de apropriá-los com nossos modelos.


João Carlos Alexim
Sociólogo

(maio de 2003) (revisão: setembro 2006) (revisão: junho 2007) (última revisão: abril 2008)

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