sábado, 8 de abril de 2017

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É tudo verdade
Outro dia fui ao Cassino Atlântico, em Copacabana, tratar de assunto particular e na saída vi paradinho à minha frente um exemplar do 474, a tristemente famosa linha de ônibus que liga a Zona Sul a Jacaré no Subúrbio. Não sei explicar, mas me baixou um espírito antropológico que estava oculto em mim desde o tempo em que era professor na FNFi. Decidi fazer uma “observação participante”. O carro era novinho, saído de fábrica e com ar-condicionado, o que não é comum ainda hoje na cidade. Creio que isso também me animou. Embarquei direto pensando em seguir pelo menos até o fim de Copacabana. Vi o motorista sair logo muito apressado, mas não dei importância, até gostei. Mas não durou um minuto e descobri a razão: era para fugir de um bando de pivetes descamisados. Mas na pressa um pivete, pelo menos, conseguiu entrar pela porta de trás e se sentiu isolado. Aos gritos e ameaças queria obrigar o motorista a abrir a porta. Como este não parecia querer obedecer, as ameaças aumentaram e ele corria dentro do ônibus para frente e voltava a ver se a porta se abria, parecia um animal enjaulado. Tornou-se violento e todos no ônibus sentiram a ameaça, uns gritavam apara o motorista abrir a porta e outros gritavam para não abrir porque certamente o bando estaria seguindo o carro e entraria. Eu já me arrependia do preito antropológico e pensava como poderia sair dali também. Isso durou eternos cinco minutos. O trânsito lento não ajudava o motorista a se afastar do local. E os cerca de quinze passageiros no contato imediato com o pivete, imaginando que logo este a qualquer momento passaria a ameaçar-nos para convencer o motorista. As ameaças aos berros e gestos largos soavam como tiros de pistola: abre essa porta seu puto...eu vou aí te dar porrada, vou passar dessa catraca e acabar com você. Vou destruir tudo, seu merda. Para logo. Finalmente, sentindo que o bando ficara para trás o motorista abriu rapidamente a porta e o animal desceu como uma pantera em fuga. Mas não se afastou, ao contrário, pegou um coco solto na rua e partiu em direção ao carro batendo fortemente com ele na porta dianteira, que teve o vidro quebrado e a lata ameaçada.                                     .          Uma senhora de meia idade que estava ao meu lado, já veterana dessa aventura, me explicou: eles ficam esperando até o finalzinho da partida do ônibus para ver se sobe um policial e só então decidem entrar.



Sobre a TV Globo
Ontem um amigo me perguntou por que sou contra a Globo e eu me preocupei. Preciso esclarecer. Não sou "contra" a Globo, a mais carioca das redes de televisão, a que dá mais emprego a belezocas (o que estariam fazendo sem a Globo?) e aos talentos audiovisuais. Critico apenas a visão imediatista do seu departamento esportivo, que faz parceria cega com o Flamengo e permite a esse clube, mesmo sem time, fazer show no maraca ou onde se apresentar no país, empurrando, por contraste, os demais para o buraco. Sim, porque a Globo tem poder de mídia para "fazer o show" de qualquer coisa, até do atual time do Flamengo, pode fazer essa mágica de criar um astro ou promover um clube, e escolheu o Flamengo. Eu gostaria que ela fosse mais equilibrada com todos os clubes cariocas. Alguns amigos, ingênuos, explicam que transmite o Flamengo porque as datas e horários coincidem com os da Globo, quando é o inverso. Outros justificam pela grande maioria de torcedores. Sim, mas essa maioria foi construída desde alguns anos já com ajuda da própria Globo. É isso, eu também quero a Globo, para o Vasco, o Botafogo....
Meus desejos esportivos de fim de ano são que as autoridades superiores da Rede Globo se apercebam que seu patrocínio a um dos clubes cariocas, em prejuízo dos demais, é perverso, comercialmente equivocado no longo prazo, eticamente condenável e ilegal frente à lei de direitos dos torcedores. Ao longo dos anos criou um fosso enorme entre as torcidas desse clube e dos demais. Diariamente pode ser demonstrada a ponta desse iceberg. Os melhores jogadores optam pelo clube parceiro porque sabem que terão sua imagem superexposta (e sabemos que os craques ganham mais de imagem que de salário). Isso traz vantagens no recrutamento de novos craques e economia nos salários contratados. Hoje mesmo um jogador disputado tornou pública sua preferência. As outras vantagens eu tenho exposto ao longo dos últimos anos e seria penoso repeti-las nessa data. Feliz Ano Novo para todos nós!
O Botafogo tem sido subestimado pela mídia como clube e time. Seu presidente acaba de descobrir que precisa reativar rivalidades esportivas como fez Eurico Miranda com o Vasco x Flamengo, roubando a preferência da Grande Rede pelo Fla x Flu. Acho que todos os quatro grandes merecem destaque em rivalidades esportivas, esse é o sentido do esporte de multidões, não a pregação do vale-tudo de certo time da Casa.


Especulação financeira

No Brasil, os especuladores financeiros fazem a festa. Eles entram à hora que querem, mordem onde querem, chupam nosso sangue na bolsa de valores e na taxa de juros, e quando querem sair do país pressionam a taxa de câmbio para ganhar também na recompra de dólares. Ganham assim duplamente. E nossas autoridades financeiras são cúmplices desse círculo vicioso.
Nos últimos anos venho criticando a política de juros altos e câmbio do Banco Central, que empurra o país para se concentrar na exportação de matérias primas, abdicando de tornar-se uma nação de primeiro mundo. É verdade, reconhecendo que por vezes o Banco teve de correr atrás para tapar buracos da política econômica. Pois agora é um dos pais do Plano Real, Pérsio Arida, (um dos outros pais, não reconhecido oficialmente, é o economista do BNDES meu primo Claudio Abreu) que afirma categoricamente que desconfia da eficácia dos juros altos no combate à inflação. Pois é, por conta desses sucessivos funcionários de bancos emprestados ao serviço público vamos exportando dinheiro para, como dizia o insuspeito – nessa matéria -- Delfin Neto, salvar o lucro dos capitalistas internacionais. Descoberta tardia, mas ainda assim inspiradora.
No Brasil, os especuladores financeiros fazem a festa. Eles entram à hora que querem, mordem onde querem, chupam nosso sangue na bolsa de valores e na taxa de juros, e quando querem sair do país pressionam a taxa de câmbio para ganhar também na recompra de dólares. Ganham assim duplamente. E nossas autoridades financeiras são cúmplices desse círculo vicioso.

Nossas Opções de Políticas de Governo entre a Cruz e a Caldeirinha
Em troca de manter pífios benefícios para os mais pobres o PT queria que a classe média aceitasse a corrupção sistêmica como instrumento de governo.  A alternativa está sendo suportar um governo de capitalismo selvagem onde proliferam economistas convencionais usando argumentos falaciosos e oportunismo de crises construídas para agir como verdadeiros abutres dos benefícios sociais. Resultado: estamos ferrados de qualquer jeito. O que chamam de crise o lulopetismo usava para justificar desgoverno e o atual governo usa para justificar a redução de direitos dos trabalhadores. Dois falsos argumentos, os males do Brasil são. As dificuldades reais são geradas por governos incompetentes e comprometidos com os ganhos do sistema financeiro.  Claro que reformas são sempre necessárias, afinal o mundo gira, mas as explicações não convencem, são mais fidejussórias, justificações de escolhas prévias.  Ouvir coisas como “esperar passar as eleições para praticar as maldades” supostamente necessárias, ofende a nossa inteligência, é uma confissão ideológica. Dificuldades, ou crises, são decorrentes de maus governos e desvios de finalidade. Quando um ministro a serviço dos bancos é nomeado para governar a economia, os juros sobem, o dólar baixa, a classe média vai fazer turismo lá fora e qualquer falta de produto na praça se resolve com mais importações. Então o que falta é uma política que favoreça o investimento nacional, essa é a crise.                                                                                                                
Ouvir explicações de autoridades ocasionais de governo dá dor de barriga, é aceitar ofensas a nossa inteligência. Somos diariamente bombardeados por economistas ardilosos a serviço do mal. É a ciranda capitalista se movendo leve, livre e solta.

A Terceirização do contrato de trabalho   31\03\17

Está em discussão (sic) e praticamente aprovado um regime trabalhista de terceirização ampla do contrato de trabalho. A resistência sindical faz sentido. A terceirização rompe com alguns postulados importantes da relação de trabalho, como a identidade profissional do empregado com a empresa. Faz parte da ideologia das relações de trabalho que este não poder ser tratado como mercadoria. Para isso os RH foram criados e desenvolvidos nas empresas. Incluem um pacote de serviços e boas práticas, como política salarial, formação, carreira e benefícios sociais.  É bem distinto se você está empregado numa empresa sólida, de imagem prestigiosa, com mística, com nome na praça, que traz orgulho a seus empregados, e outra, terceirizada, criada às pressas para dar conta de um contrato de tempo limitado. Você cria dois gêneros de empregados trabalhando juntos, o autêntico e o bastardo. É o deterioro, o conflito dentro das hostes trabalhistas. Só um governo sem alicerces históricos poderia ter coragem de instituir um regime dessa ordem (sem progresso).
A terceirização já se pratica atualmente, mas apenas para funções secundárias, provisórias ou temporárias da empresa. Agora se está liberando para todas as funções, um escândalo inacreditável, uma vez que isto está sendo feito na marra e sem nenhum beneficio compensatório para os trabalhadores. Podemos afirmar que essa proposta ademais está no bojo de um processo de depreciação e precarização das relações de trabalho. Se assim, quem sabe não deveríamos extinguir de vez o contrato individual e os trabalhadores se reuniriam em seus respectivos sindicatos e o sindicato faria contrato comercial com as empresas, como se pratica em parte nos portos?! Eliminaríamos as relações de trabalho e Marx estaria feliz em seu túmulo, sem mais a exploração do homem pelo homem.


Impeachment

A Crise Institucional do país: Está claro que a Lei do Impeachment precisa ser rediscutida. A associação entre uma base técnica e uma interpretação política é uma contradição em si mesma. Se é necessária uma base técnica e uma vez cumprido o requerido, qual o papel que restaria aos políticos? Se eles podem ignorá-la, então não era necessária, era apenas subsídio. Ora, se uma autoridade jurídica os obriga a votar de acordo com a base técnica, então para quê consultar os políticos?  E se eles decidem votar contra a base técnica poderão ser contestados pelo jurídico?
Por isso eu disse em texto anterior que é tudo um faz de conta: os políticos ignoram a base técnica e votam de acordo com seus interesses, fingindo que estão considerando a base técnica, enquanto o jurídico finge que está sendo obedecido.
Outra contradição é a necessidade de passar primeiro pela Câmara para depois passar pelo Senado. Ora, se a Câmara veta tira o direito do Senado de examinar. Se a Câmara aprovar, o veto no Senado soa como reprovação da Câmara, sem chance de reavaliação. Por que não juntar o Congresso para um exame conjunto?
Muita coisa precisa ser revista na institucionalidade do país.


Governo provisório

Enquanto eu pensava no grande equívoco que atualmente ocorre no país, como parte de minha tese da crise institucional, vejo que o tema foi tratado por um partido de oposição, em reclamação ao Supremo. Realmente o Temer não podia ou não devia fazer tanta mudança como governo provisório. Era até melhor para ele, e o desobrigava de consertar o país em tão pouco tempo, tarefa quase impossível. E funcionava até como pressão para aprovar logo a saída de Dilma. Temer não teria de fazer nada, só levar o governo em banho-maria. Mas isso não seria desastroso para o país, aguentar mais tempo no caos? Então realmente aí está mais um vazio da lei do impeachment, requerendo discussão e revisão. E sujeito a mais improvisos do Supremo.
A primeira obrigação de um governo é cuidar do bem-estar da população e a geração de renda é um dos principais instrumentos desse objetivo. Governos que falham nessa finalidade deviam ser depostos ou renunciar. Tenho visto chefes de família às lagrimas sem saber como manter sua sobrevivência. Tenho visto um governo provisório aproveitar-se da suposta crise para cortar benefícios e conquistas da sociedade, sem tocar em alternativas que poderiam poupar o sacrifício social. Lamento a falta de verdadeiros líderes políticos com o perfil de estadistas. É grave a situação do nosso país, não apenas pela má economia, mas pela falta de grandeza e virtudes de nossas autoridades.
É o que sempre digo, toda vez que se anuncia uma reforma nesse país é para cortar benefícios dos trabalhadores públicos ou privados. E que dizer dos aposentados? Os dirigentes do país são cretinos, abusam da ignorância de muitos brasileiros, que eles exploram com suas escolas falidas e sua saúde negada. Faltam líderes legítimos, com dignidade, consciência do bem comum e visão de estadista. A gente já está cansado de fazer manifesto e passeata, porque já não acreditamos nisso

O Supremo

O Supremo tem sua chance de corresponder à grandeza que dele se espera e mostrar-se ao país como um verdadeiro marco da pátria, renunciando com alarde a esse acinte contra o povo brasileiro. Está claro que Temer está chantageado, e é obvio que também ele não vai mostrar qualquer atitude superior a suas pernas. Parece que o povo vai ter de voltar às ruas, agora com uma tarefa bem mais difícil de captar numa palavra de ordem.
Nós afinal já customizamos o absurdo, vulgarizamos a marginalidade, engolimos a rapinagem dos políticos e administradores da coisa pública. Mas se pararmos um minuto para refletir, que merda fizeram desse país?! Convivemos com bandidos que cruzam com a gente nos sinais e nas esquinas, vemos todo dia um gestor publico ser descoberto na gandaia, e imaginamos quantos outros não foram ainda descobertos. Vivemos a impotência de não saber como parar com tudo isso. Corremos o risco de nos virar baratas. Proponho que não deixemos um dia sequer de indignar-nos. Mesmo sabendo que não vai adiantar até que outras coisas aconteçam, vamos exercer nosso dever de ficar indignados com a torpeza de empresários, comerciantes, políticos e gestores que se apossam de bens públicos. Quantos Moro seriam necessários? Felizmente as transformações sociais nunca tiveram autoria, elas acontecem e só se explicam depois, vamos manter a esperança de um acaso. A coisa pública é sagrada, não pode ser objeto de astúcia da bandidagem. Qualquer dano a um bem público pode ter consequência para milhares de indivíduos. Vamos parar de imaginar que desvio de recursos é apenas crime eleitoral.
Minha opinião pelo impeachment nunca foi baseada em pedaladas, mas nos graves delitos eleitorais. E nunca me deu prazer, sei que não temos alternativas confiáveis. Ironicamente, quando Dilma tira o Levy (neoliberal convencional) por discordância teórica, eu aplaudo, e quase me convence a torcer por sua permanência, não fosse a necessidade de punir o mau exemplo eleitoral. Quando ela pede agora a “boa política”, esquece a pregação do confronto que seu cabo eleitoral raivosamente pedia nos palanques e na mídia. 
Hoje sabemos que o Supremo (sic) está pagando pedágio. E a farsa, o escárnio do Sr. Tofoli votando contra o governo só reforça a impressão que tudo estava já armado. Me senti num circo.

Afinal, estamos cegos moralmente? Estamos condenando a corrupção dos meios sem questionar em nada a corrupção dos fins? Será que faz sentido a gente se tornar um monstruoso abatedouro animal para alimentar o mundo rico? As recentes denúncias de problemas no circuito nos trazem à luz a visão crua de um problema muito maior: nosso país se transformou num grande matadouro animal, de proporções gigantescas, um verdadeiro holocausto animal permanente, 24 horas, o sangue jorrando por nossas faces, maculando nosso sangue e estamos discutindo se ele é vermelho. Será que precisamos do dinheiro sujo do mundo rico para equilibrar nossa balança comercial? Nosso motivo é justo? Não teríamos outros recursos, outras riquezas para fundamentar nosso equilíbrio fiscal? Já estamos tão abalados por nossos problemas cotidianos que perdemos nossos sentidos de humanidade? Além dos desvios de nossas merendas e nossas poupanças, nos sobra algum sentimento de humanidade para questionar essa carnificina hedionda?

Dia da Independência

No dia em que se convencionou chamar “da independência” eu leio estarrecido, mas não surpreso, que os novos (sic) poderes da república querem remunerar o trabalhador por hora trabalhada. Esse é o caminho mais claro e corrosivo para eliminar direitos trabalhistas e tratar o trabalho como mercadoria, regressando aos tempos de Marx no século XIX.  Tudo isso é parte da herança maldita do PT que nos jogou nas mãos do capitalismo abutre, comandado por um banqueiro no ministério da economia (que saudade de homens como Celso Furtado!). Justamente nos momentos de crise (o capitalismo usa e abusa das crises, elas estão sempre a seu serviço), com forte desemprego, as organizações trabalhistas (sindicatos) estão fragilizadas e não conseguem enfrentar seu inimigo direto. As reformas não precisam ser sempre às custas do lado mais fraco, mas é isso que acontece. Nesses momentos o poder faz o que é certo, por exemplo, aumentar a idade de aposentadoria para melhorar a curva populacional, e junta um monte de justos direitos para varrer tudo de uma varada só. E o povo já está cansado de ir às ruas e perceber que a leitura que fazem de suas mensagens é sempre distorcida. As passeatas viciosas e remuneradas do PT ajudam no desgaste. Dia da Independência soa quase como um deboche.

É o que sempre digo, toda vez que se anuncia uma reforma nesse país é para cortar benefícios dos trabalhadores públicos ou privados. E que dizer dos aposentados? Os dirigentes do país são cretinos, abusam da ignorância de muitos brasileiros, que eles exploram com suas escolas falidas e sua saúde negada. Faltam líderes legítimos, com dignidade, consciência do bem comum e visão de estadista. A gente já está cansado de fazer manifesto e passeata, porque já não acreditamos nisso.

Quando eu olho para trás, o PT foi uma de minhas últimas ilusões. Quando eu olho para o que o PT fez do Brasil, eu fico envergonhado comigo mesmo. Vejo minha falta de percepção e fico pensando se posso crer nas minhas convicções atuais. Ou seja, o PT me destruiu desmoralizando meus instrumentos de compreensão da realidade, minhas certezas mesmo provisórias.  O Brasil hoje é um absurdo, as pessoas se matam e matam por qualquer valor, um smartphone, um cordão. Antes pensávamos que os bens públicos eram de todos, todos tinham de cuidar, o PT os transformou em de ninguém e portanto qualquer um pode tomar.
Os teóricos do socialismo, Marx incluído, achavam que o socialismo se alcançava por cima, com o crescimento de todos, vem o PT e tenta fazer um socialismo por baixo, deu no que deu.
E precisa ter muita cara de pau para continuar negando o que todos veem. E precisa ser um país bem infeliz para engolir tudo isso. Esse lixo.


Duas caras da mesma moeda

Lula e FHC são duas caras da mesma moeda. O desenho partidário de hoje reproduz o de velhos tempos quando o PSD estava para a classe média e o PTB para o povão. Com essa distribuição as elites mantinham o controle completo da sociedade, como é de sua vocação.
Essa mesma fórmula funciona nos dias de hoje: o PSDB cuida da classe média e o PT cuida do povão. Ambos obedecem a uma mesma lógica elitista. Ou alguém pensa que o PT é um partido de esquerda de corte socialista?
Dirão que o PT foi criado de forma autônoma por uma mescla de sindicalistas, intelectuais e igreja, tudo bem, mas isso foi possível porque estava dentro da expectativa da lógica elitista de sustentação do controle social.
Quando o PT se entusiasmou no caminho e pensou de forma radical precisou lançar a Carta aos Brasileiros. E o que é a carta senão uma promessa de trabalhar dentro dos parâmetros do capitalismo. Em nenhum momento Lula ousou um salto político. E mais, cumpriu fielmente o prometido colocando todo nosso dinheiro nas mãos do neoliberal Henrique Meireles. Da total confiança dos militantes petistas? Não, um homem do sistema financeiro internacional que poderia ser ministro do PSDB.  E trabalhou os oito anos com juros altos, apesar da crítica de Lula aos juros altos de FHC. Com rigor podemos dizer que Meireles cuidou do andar de cima com Palocci, e Lula cuidou do andar de baixo, conforme sua vocação. Um governo dual que foi viabilizado pela enxurrada de recursos trazidos pelas commodities.

Mas o modelo distributivo de Lula não podia ser para sempre, os recursos fatalmente se exaurem no tempo, foi o que aconteceu, agravado pela baixa da matéria–prima.

Ironicamente o período de governo petista mais próximo de suas origens foi o primeiro governo de Dilma, quando o fator neoliberal foi eliminado. Infelizmente, para Dilma, o sistema de governo já estava contaminado: os aliados já estavam na prática sistemática da corrupção, já sem precisar prestar serviço; as commodities não rendiam como no passado; O PT estava internamente dividido em facções.

Lula e FHC cultivam amor e ódio, têm uma profunda admiração mútua. Lula inveja o estilo intelectual de FHC e este o carisma de Lula, a capacidade dele se aproximar do povo. FHC elegeu Lula por satisfação e vaidade, sacrificando o “amigo” Serra.
O milagre de Lula na retirada de milhões de pessoas da miséria, foi possível por um detalhe perverso de FHC, que separou o destino do salário mínimo do destino dos aposentados, foi um algoz dos velhinhos, Lula não teria coragem de fazer isso, mas não mudou a decisão de FHC, se aproveitou dela para descolar de vez o salário mínimo e inserir milhões de brasileiros, não num processo de matiz socialista, mas no mercado capitalista. FHC ia fazer isso se tivesse mais tempo.

Como se sabe, o bolsa-família também é uma dívida do Lula com FHC, que apenas não teve tempo de fazer o que Lula fez. O bolsa-família no modo como é praticado, constitui um programa social que qualquer partido de direita teria prazer em fazer.
Se o PT fosse um partido de esquerda estaria exibindo um programa de saúde universalizado e de alta qualidade, não o fez, ao contrário, destruiu o pouco que havia e o único sistema de qualidade feito pelo PT foi o Sírio-Libanês, para uso próprio e dos amigos.
E teria construído um sistema educativo público de alta qualidade, em vez de dar bolsa de estudos nas escolas particulares da elite, transferindo recursos para estas. O que ele fez é um típico programa de partido de direita, com o tradicional processo de cooptação dos melhores cérebros pelas elites. O mesmo que os americanos fazem com os melhores cérebros brasileiros oferecendo-lhes bolsas de estudos em suas melhores escolas.

FHC faz suas escolhas na crença de que estimulando as elites os pobres serão beneficiados por um processo em cadeia, afinal são os ricos que investem em empresas que dão empregos e produzem bens.
Esperava-se que Lula induziria um modelo de baixo para cima, investindo fortemente em educação e desenvolvimento microrregional. Não o fez, investiu em grandes empresas como multiplicadoras, ao velho modelo conservador. 


Extratos da carta: Será necessária uma lúcida e criteriosa transição entre o que temos hoje e aquilo que a sociedade reivindica. O que se desfez ou se deixou de fazer em oito anos não será compensado em oito dias. O novo modelo não poderá ser produto de decisões unilaterais do governo, tal como ocorre hoje, nem será implementado por decreto, de modo voluntarista. Será fruto de uma ampla negociação nacional, que deve conduzir a uma autêntica aliança pelo país, a um novo contrato social, capaz de assegurar o crescimento com estabilidade. Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país.  A estabilidade, o controle das contas públicas e da inflação, é hoje um patrimônio de todos os brasileiros. As mudanças que forem necessárias serão feitas democraticamente, dentro dos marcos  institucionais.


Alternância de poder

Nas últimas eleições votei pela alternância no poder. Devia ser uma das regras pétreas da democracia. Isso obrigaria os dirigentes a ser mais prudentes, desestimularia a corrupção e evitaria o aparelhamento do estado. Precisamos apostar mais na circulação das lideranças, principalmente das elites. Acreditar mais nas instituições e não apenas nas pessoas. Salvadores da pátria costumam ter u bom começo e um final desastroso.
Não vejo, por exemplo, como o PT sairia andando do poder (só de maca), o que faria com os 60 mil ativistas e chefes de torcida que vivem de contratos do estado? Justamente por ter projeto político de permanência indefinida no poder (20 anos, 30 anos?) é que criou estruturas artificiais na administração pública. E optou por correr riscos na certeza de que os que virão depois não estarão interessados em avaliar os seus desvios de conduta.
Se queremos de verdade uma democracia, teremos de nos acostumar com uma sociedade de classe média, buscar entendê-la e não demonizá-la como faz o PT, numa leitura apressada de Marx.
O que vivemos no país neste momento é o atropelo deslavado das frágeis posturas democráticas, de todos os lados. Por confiar demais em lideranças carismáticas de fachada convivemos com o abuso e o improviso. Nesse clima tudo pode acontecer e o custo é quase sempre pago pela parte mais vulnerável da sociedade.

Não estou eufórico com a possível derrocada do PT, estou triste e sigo revoltado. Até porque pessoalmente me prejudica . Na última eleição votei pela alternância no poder, depois de sucessivas votações favoráveis ao partido que prometia e tinha genética para mudar o país. Infelizmente o PT havia perdido o rumo e a razão de ser. Um período sabático poderia ajudar quem sabe o PT a voltar a suas raízes, certamente mais sólido para retomar o comando da política e do governo, recuperando o antigo tesão, mais amadurecido e fazendo as coisas certas e não as farsas que parte da intelectualidade se perde em enaltecer com slogans vazios como essa de “não vai ter golpe” sem explicar, nunca, como o país veio parar na lama depois de 12 anos de governo. Aliás, intelectual incompetente para a política não é novidade, a literatura e a história estão fartos dessa incongruência. A beleza estética, musical e poética do artista não o qualifica automaticamente para falar de política, depende mais de sua história de vida, mas aí sua opinião não é melhor nem pior que a dos nossos amigos mais próximos. Um conhecido sociólogo norte-americano lembrava muitos anos atrás que os artistas costumam ser apenas “a cortina sonora do poder”.     12\04\2016

O Faz de Contas da Política Brasileira

Como explicar a algaravia da recente política nacional?  O PT foi a maior novidade partidária dos últimos 30 anos. Trouxe um novo tempero para a política do país, um governo que olhava para baixo, que dava visibilidade ao pobre. Mas afinal não promoveu nenhuma reforma estrutural sustentável, fez mais ruído que mudança e praticou o assistencialismo abusivo.       Mas um governo realmente de esquerda teria revolucionado a educação e a saúde, teríamos hoje um cenário muito diferente para as populações de baixa renda. Ainda assim não se pode negar que fez muito mais para o pobre que os governos tradicionais.
Mas não investiu em sustentabilidade, quando os ventos do comércio exterior de commodities eram favoráveis. Em vez de promover o crescimento industrial favoreceu a importação, com um dólar barato que cobria as demandas crescentes da população com produtos da China.  No curto prazo funcionou, mas quando o jogo comercial virou, começou a fazer água no sistema.
Os benefícios distributivos ajudaram os que estavam prontos para receber, mas os que vinham atrás já não puderam ter a mesma sorte.
Era hora de renovar os contratos políticos, mas aí entrou em cena certo juiz do Paraná, que, como na poesia de Drummond, não fazia parte da estória.  Juntou-se a isso a quebra da Petrobrás e a falência de todos os indicadores da economia brasileira. Seria o fim do ciclo do PT e viria a alternância, como parte do processo democrático. Mas os compromissos ideológicos do partido e o modelo aparelhador não permitiam cumprir o que a realidade do país recomendava.
 O esquema de alianças do PT não se enquadrava em seu modelo ideológico de corte absolutista. O resultado foi um composto espúrio, um frankestein que só o malabarismo de Lula conseguia manter de pé.  Mas Lula e Dilma estavam de guerrinha interna e o partido perdeu o timing político. A falta de uma oposição combativa, o aparelhamento do estado e a criação de milícias partidárias ajudavam a amortecer os sensores do partido.  A reeleição de Dilma foi forçação de barra e para tanto o PT teve de apelar para todo tipo de recurso, lícitos ou não.  Mas estava navegando num terreno onde os adversários eram veteranos e ele aprendiz de feiticeiro. O PT foi um partido diferente em muitos aspectos, pela natureza ideológica, mas caiu na vala comum das práticas de acumulação e preservação do poder político.  E acabou perdendo as condições mínimas de governança: credibilidade e capacidade.
Normalmente deveria renunciar para poupar o desgaste político e voltar reciclado em 2018. Não teve grandeza para isso. Talvez os milhares de cargos de nomeação partidária tenham impedido o gesto nobre e oportuno.
Caberia o impedimento pela Justiça Eleitoral, mas essa importante instituição não se mostrou preparada para o momento, levaria um século para exercer suas responsabilidades, enquanto o país sangrava e exigia presteza nas soluções. Então as ambições pessoais entraram em cena, ocupando o vazio político e precipitando, por sua vez, os acontecimentos.
O instrumento selecionado para esse fim, o pedido de impeachment com os três pilares, teria sido o modelo apropriado, mas a legislação, imperfeita, criava limitações absurdas, como a do fato restrito ao período de mandato, elaborada quando não havia reeleição, então inadequada para a realidade atual. O fato político não é episódico, ele se desenvolve no tempo, não pode ser integralmente capturado no flagrante. As chamadas pedaladas só podem ser entendidas no contexto histórico do país, isoladas perdem substância.
O PT perdeu o timing político para governar, tinha de dar lugar ao curso da história, mas não era de seu estilo. Quando sentiu o perigo apelou ao Supremo. Achava que a maioria da Corte lhe daria sustentação.  Mas o Supremo enxergou a onda política que se esteva configurando, óbvia e irremediável, ficou dividida entre uma suposta fidelidade e a razão institucional. Faltava-lhe um modelo para apropriar a crise e encaminhá-la sem contestações. Teve de improvisar: a Câmara apenas admite, mas quem decide é o Senado.  Tudo parecia resolvido, mas o presidente da Corte, ao fazer a suma das discussões, incorpora por conta própria uma limitação ao poder do Senado, impossível de ser administrada. Como submeter o critério técnico à escolha política? Ou é uma coisa ou é outra. O resultado foi o jogo de cena instalado: a defesa construindo um sofisma intencional, tentando reduzir o fenômeno a um ato simples, fazendo uma leitura interessada da suma do Supremo e daí extraindo o argumento para o mantra do golpe, e a oposição não aceitando a limitação mas não podendo levantar questão sobre a atitude do presidente do Supremo, sobretudo porque é ele quem vai presidir as seções do Senado. Cria-se o jogo de cena, cada lado insiste em sua narrativa, intencionalmente falsa, sem nenhum diálogo real. O Congresso finge que está cumprindo regulamento do Supremo e este finge que está sendo obedecido. Na verdade o jogo foi jogado e não há mais condições de governabilidade para Dilma. Mas esse jogo tem de ser representado até o fim, para cumprir formalidades e por isso, tudo parece ser uma grande farsa, um jogo de cegos e surdos.  Precisamos de reforma política urgente, mas não sei se os que estão aí estarão à altura dos desafios. A alternância no poder é fundamental numa democracia, o melhor instrumento para ampliar oportunidades e aproveitar a riqueza humana proporcionada pela diversidade natural de um país da dimensão do nosso.
Mas ao fim e ao cabo, vai ser muito bom para o PT: livra-se da ingrata tarefa de arrumar a casa e pode voltar em 2018, depurado, com o mantra de recuperar o que lhe foi tirado à força

O ex-diretor da AGU tinha razão, foi um golpe. Mas esqueceu intencionalmente de dizer que foi um golpe político. Ele tenta um argumento de que somos presidencialistas e o golpe tinha perfil parlamentarista. Na verdade, a fragilidade da política brasileira coloca-a entre os dois regimes. Nosso presidencialismo tem de lidar com duas câmaras famintas de poder e sobretudo de privilégios e benefícios. Se nosso presidencialismo escorrega para o lado direito vira ditadura e se o faz para o outro lado vira parlamentarismo.
Em dado momento o vice fez as contas e viu que somado à oposição tinha mais canhões que o isolado parceiro eleitoral, que o tratava como convidado de pedra.  Lembremo-nos da revolta paulista de 32 em que os generais dos dois lados contaram os canhões e...fez-se a paz!  Não está nos manuais de política que os partidos não podem mudar de aliança no regime presidencial. O AGU chamou de crime o que era apenas um golpe político. Se esse tipo de golpe vale ou não, não creio que esteja escrito nas estrelas. O detalhe técnico se tornou irrelevante. Já o golpe eleitoral do PT, em 2014, não há nenhuma dúvida que arranha as regras do jogo.

O nosso Planeta está enfermo e sangra. Temperaturas batem recordes e não se vêm esforços significativos de preservação das matas e despoluição das bacias hidrográficas.
A humanidade está socialmente enferma. Continuamos com três bolsões sociais estanques, as elites endinheiradas, as classes médias hesitantes e a pobreza resistente. O mundo ocidental, que comanda as decisões do planeta, mostra total descompromisso com o futuro da humanidade. As elites continuam em seu baile da ilha fiscal, sem grandes lideranças virtuosas, já sabem que não haverá tempo tecnológico para construir uma ponte salvadora para outro planeta, e vêm ruir seus templos de segurança, a Europa civilizada e os EEUU rígidos em seu controle social. As dramáticas projeções de futuro nas ficções hollywoodianas já podem ser vistas aqui e ali pelo mundo afora. 
A França já não possui o dom das grandes filosofias que nos orientariam com segurança para um novo mundo (saudades de Rousseau...), e a Inglaterra, depois dos Beatles, não produz mais novos cenários culturais aglutinativos. O abalo é geral e no caso brasileiro não temos mais a janela para olhar os exemplos externos que nos davam esperanças. O mundo está ruindo. O que se aproxima e dá sinais (ovos da serpente) é o salve-se quem puder, o vale tudo de um UFC que extrapola o quadrilátero e transforma as cidades em reality shows.
A última batalha com o socialismo foi ganha na Alemanha dos anos 20 e quando foi preciso a direita usou da metralhadora e exterminou Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, assegurando a supremacia capitalista e logo a fusão do capital industrial, liberal, com o capital financeiro, oligárquico, das indústrias com os bancos, e fomentando a participação do trabalhador como bucha de canhão na Grande Guerra, que não lhe convinha e de onde não tiraria nenhum proveito.
Consolidada a dominação capitalista no mundo ocidental, faltou caráter e nobreza aos burgueses para exercer a liderança com dignidade e responsabilidade social. Tornaram-se soberbos e inconsequentes. 
O resto é o resto. Já basta para um fim de semana de 40 graus.
Vamos à praia, que ainda nos resta.

Previdência

No tempo de Pinochet o Chile foi albergado pelos Estados Unidos com todo tipo de apoio, entre eles um novo modelo de previdência social. O modelo prevalecente na época era o de solidariedade entre gerações. Cada geração trabalhava para manter a geração em retirada. Esse modelo funcionou muito bem por gerações, mas enfrentava problemas decorrentes de vários fatores: a inovação tecnológica ia encurtando o emprego; no processo civilizatório as famílias reduziam a procriação; a população retirada estava ganhando anos de sobrevivência com o avanço dos recursos médicos; a nova tecnologia aplicada à medicina encarecia enormemente o custo da saúde. Enfim, o produzido na geração atual não estava dando conta da sustentação da geração anterior. E a ideologia neoliberal imperante condenava qualquer tipo de suporte social não abrigado por geração própria.  Então chegou o modelo de previdência por poupança e através do Chile ele foi imposto demonstrativamente a todo o continente. Na época eu me servi do expertise da OIT para mostrar que o novo modelo assegurava um bom e atrativo começo porque os custos só iriam começar a pesar 20 anos depois. Fomos vencidos pero furor neoliberal e os governos de nossos países da região foram convencidos pela facilidade das vantagens imediatas. E agora quando vejo notícia de crise no modelo chileno, só não me rio porque é assunto de chorar.





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